FERN. Estou em muito & em nada, 460 porque a vida namorada tem cousas boas & maas.
-- Vem hum hermitam & diz:
HERM. -- Fazeyme esmola, pastores, por amor do senhor Deos.
ROD. Mas faca elle esmola a nos, 465 & seja que estes amores se atem com senhos nos.
HERM. O casar Deos o prouee & de Deos vem a ventura, da ventura aa criatura 470 mas com dita he por merce & tambem serue a cordura.
-- Pondevos nas suas mos & no cureis descolher, tomay o que vos vier 475 porque estes amores vos teram certo arrepender.
Filhas, aqui estais escritas, Filhos, tomay vossa sorte, & cada hum se comporte 480 dando gracas infinitas a Deos & a el Rey & a corte.
-- Tirou o ermitam da manga tres papelinhos & os deu aos pastores, que toma.s.se cada hum sua sorte & diz Fernando:
-- Rodrigo tome primeyro, veremos como se guia.
ROD. Nome da virgem Maria!
485 lede, padre, esse letreyro, se me cega ou alumia.
Escri. Deos & a ventura manda que quem esta sorte ouuer tome logo por molher 490 Felipa sem mais demanda.
ROD. -- Vencida tenho eu a batalha, Felipa, mana, vem caa.
FEL. Tirte, tirte, eramaa laa, & tu cuydas que te valha?
495 Nunca teu olho veraa.
GONc. Ora vay, Fernando, tu, veremos que te viraa.
FERN. Alto nome de Jesu!
lede, padre, que vay la?
Escrito.
500 -- A sentenca he ja dada & a sustancia della que cases com Madanela.
MAD. Fernando, nam me da nada, seja muytembora & nella.
505 FERN. Dias ha que to eu digo & tu tinhas me fastio.
CAT. Oo Fernando de meu tio quem me casara com tigo!
GONc. -- Oo Madanela, yeramaa, 510 se me cayras em sorte!
CAT. Ante eu morrera maa morte que Fernando ficar laa tam contrayro do meu norte.
E porem nam me da nada, 515 ja me tu a mi pareces bem, Goncalo.
GONc. E tu a mi Catalina; mudate di y pa.s.sea per hi alem, verey que aar das de ti.
520 FEL. -- Estouteu, Rodrigo, olhando, & vou sendo ja contente.
ROD. Se de mi nam es contente nam tey dandar mais rogando.
Eu andote namorando 525 & tu acossasme cada dia.
CAT. Inda queu isso fazia, Rodrigo, de quando em qudo, muy grande bem te queria.
-- E quando eu refusaua 530 de te tomar por amigo nam ja porque eu nam folgaua mas porque te examinaua se eras tu moco atreuido.
HERM. Agoro quero eu dizer 535 o que aqui venho buscar.
Eu desejo dabitar hua ermida a meu prazer onde podesse folgar.
E queriaa eu achar feyta 540 por nam csar em fazela, que fosse a minha cella antes bem larga que estreyta & que podesse eu dancar nella.
E que fosse num deserto 545 denfindo vinho & po, & a fonte muyto perto & longe a contemplaco.
-- Muyta caca & pescaria que podesse eu ter coutada 550 & a casa temperada: no veram que fosse fria & quente na inuernada.
A cama muyto mimosa & hum crauo aa cabeceyra, 555 de cedro a sua madeyra; porque a vida religiosa queria eu desta maneyra.
-- E fosse o meu repousar & dormir atee tais horas 560 que nam podesse rezar por ouuir cantar pastoras & outras a.s.souiar.
Aa cea & jantar perdiz, o almoco moxama, 565 & vinho do seu matiz, & que a filha do juyz me fizesse sempre a cama.
-- E em quanto eu reza.s.se esquecesse ella as ouelhas 570 & na cela me abraca.s.se & mordesse nas orelhas, inda que me lastima.s.se.
Irmos pois deueis saber da serra toda a guarida 575 prazauos de me dizer onde poderey fazer esta minha sancta vida.
GONc. -- Estaa alli, padre, hum siluado vicoso, verde, florido, 580 com espinho tam comprido, e vos nuu alli deytado perderieis o proido.
Yuos, nam esteis hi mais, porque a vida que buscais 585 nam na da Deos verdadeyro inda que lha vos pecais.
SERRA. -- Ora, filhos, logo essora, cada hum com sua esposa, vamos ver a poderosa 590 Raynha nossa Senhora, sem nenhum de vos por grosa, porque he forcoso que va, que segundo minha fama da Raynha ey de ser ama 595 & a isso vou eu la.
-- Que tal leyte como o meu nam no ha em Portugal, que tenho tanto & tal e tam fino Deos mo deu 600 que he manteyga & nam al.
E pois ha de ser senhora de tam grande gado & terra quem outra ama lhe der erra, porque a perfeyta pastora 605 ha de ser da minha serra.
GONc. -- Ha mester grandes presentes das vilas, casaes & aldea.
SERRA. Mandaraa a vila de Sea quinhentos queyjos resentes, 610 todos feytos aa candea, e mais trezentas bezerras & mil ouelhas meyrinhas & dozentas cordeyrinhas taes que em nenhuas serras 615 nam se achem tam gordinhas.
-- E Gouuea mandaraa dous mil sacos de castanha tam grossa, tam san, tamanha que se marauilharaa 620 onde tal cousa se apanha.
E Manteygas lhe daraa leyte para quatorze annos, & Couilham muytos panos finos que se fazem laa.
625 -- Mandaraam desses casaes que estam no c.u.me da serra pena pera cabecaes toda de aguias Reaes, naturaes mesmo da terra.
630 E os do val dos penados & montes dos tres caminhos que estam em fortes montados mandaro empresentados trezentos forros darminhos 635 pera forrar os borcados.
-- Eu ey lhe de presentar minas douro que eu sey com tanto que ella ou el Rey o mandem ca apanhar, 640 abasta que lho criey.
GONc. E afora ainda aos presentes auemos lhe de cantar muyto alegres & contentes polla Deos alumiar 645 por alegria das gentes.
Vem dous folies do Sardoal, hum se chama Jorge e outro Lopo, & diz a Serra:
-- Sois vos de Castella, manos, ou la debayxo do estremo?
JOR. Agora nos faria o demo a nos outros Castellanos.
650 Queria antes ser lagarto polos sanctos auangelhos.
SERRA. Donde sois?
JOR. Do Sardoal, & ou bebela ou vertela, vimos ca desafiar 655 a toda a serra da estrela a cantar & a baylar.
ROD. -- Soberba he isso perem pois haqui tantos pastores & tam finos bayladores 660 que nam ham medo a ninguem.
LOPO. Muytos ratinhos vam la de ca da serra a ganhar & la os vemos cantar & baylar bem coma ca 665 & he a.s.si desta feycam.