Four Plays of Gil Vicente - Part 34
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Part 34

FERN. Estou em muito & em nada, 460 porque a vida namorada tem cousas boas & maas.

-- Vem hum hermitam & diz:

HERM. -- Fazeyme esmola, pastores, por amor do senhor Deos.

ROD. Mas faca elle esmola a nos, 465 & seja que estes amores se atem com senhos nos.

HERM. O casar Deos o prouee & de Deos vem a ventura, da ventura aa criatura 470 mas com dita he por merce & tambem serue a cordura.

-- Pondevos nas suas mos & no cureis descolher, tomay o que vos vier 475 porque estes amores vos teram certo arrepender.

Filhas, aqui estais escritas, Filhos, tomay vossa sorte, & cada hum se comporte 480 dando gracas infinitas a Deos & a el Rey & a corte.

-- Tirou o ermitam da manga tres papelinhos & os deu aos pastores, que toma.s.se cada hum sua sorte & diz Fernando:

-- Rodrigo tome primeyro, veremos como se guia.

ROD. Nome da virgem Maria!

485 lede, padre, esse letreyro, se me cega ou alumia.

Escri. Deos & a ventura manda que quem esta sorte ouuer tome logo por molher 490 Felipa sem mais demanda.

ROD. -- Vencida tenho eu a batalha, Felipa, mana, vem caa.

FEL. Tirte, tirte, eramaa laa, & tu cuydas que te valha?

495 Nunca teu olho veraa.

GONc. Ora vay, Fernando, tu, veremos que te viraa.

FERN. Alto nome de Jesu!

lede, padre, que vay la?

Escrito.

500 -- A sentenca he ja dada & a sustancia della que cases com Madanela.

MAD. Fernando, nam me da nada, seja muytembora & nella.

505 FERN. Dias ha que to eu digo & tu tinhas me fastio.

CAT. Oo Fernando de meu tio quem me casara com tigo!

GONc. -- Oo Madanela, yeramaa, 510 se me cayras em sorte!

CAT. Ante eu morrera maa morte que Fernando ficar laa tam contrayro do meu norte.

E porem nam me da nada, 515 ja me tu a mi pareces bem, Goncalo.

GONc. E tu a mi Catalina; mudate di y pa.s.sea per hi alem, verey que aar das de ti.

520 FEL. -- Estouteu, Rodrigo, olhando, & vou sendo ja contente.

ROD. Se de mi nam es contente nam tey dandar mais rogando.

Eu andote namorando 525 & tu acossasme cada dia.

CAT. Inda queu isso fazia, Rodrigo, de quando em qudo, muy grande bem te queria.

-- E quando eu refusaua 530 de te tomar por amigo nam ja porque eu nam folgaua mas porque te examinaua se eras tu moco atreuido.

HERM. Agoro quero eu dizer 535 o que aqui venho buscar.

Eu desejo dabitar hua ermida a meu prazer onde podesse folgar.

E queriaa eu achar feyta 540 por nam csar em fazela, que fosse a minha cella antes bem larga que estreyta & que podesse eu dancar nella.

E que fosse num deserto 545 denfindo vinho & po, & a fonte muyto perto & longe a contemplaco.

-- Muyta caca & pescaria que podesse eu ter coutada 550 & a casa temperada: no veram que fosse fria & quente na inuernada.

A cama muyto mimosa & hum crauo aa cabeceyra, 555 de cedro a sua madeyra; porque a vida religiosa queria eu desta maneyra.

-- E fosse o meu repousar & dormir atee tais horas 560 que nam podesse rezar por ouuir cantar pastoras & outras a.s.souiar.

Aa cea & jantar perdiz, o almoco moxama, 565 & vinho do seu matiz, & que a filha do juyz me fizesse sempre a cama.

-- E em quanto eu reza.s.se esquecesse ella as ouelhas 570 & na cela me abraca.s.se & mordesse nas orelhas, inda que me lastima.s.se.

Irmos pois deueis saber da serra toda a guarida 575 prazauos de me dizer onde poderey fazer esta minha sancta vida.

GONc. -- Estaa alli, padre, hum siluado vicoso, verde, florido, 580 com espinho tam comprido, e vos nuu alli deytado perderieis o proido.

Yuos, nam esteis hi mais, porque a vida que buscais 585 nam na da Deos verdadeyro inda que lha vos pecais.

SERRA. -- Ora, filhos, logo essora, cada hum com sua esposa, vamos ver a poderosa 590 Raynha nossa Senhora, sem nenhum de vos por grosa, porque he forcoso que va, que segundo minha fama da Raynha ey de ser ama 595 & a isso vou eu la.

-- Que tal leyte como o meu nam no ha em Portugal, que tenho tanto & tal e tam fino Deos mo deu 600 que he manteyga & nam al.

E pois ha de ser senhora de tam grande gado & terra quem outra ama lhe der erra, porque a perfeyta pastora 605 ha de ser da minha serra.

GONc. -- Ha mester grandes presentes das vilas, casaes & aldea.

SERRA. Mandaraa a vila de Sea quinhentos queyjos resentes, 610 todos feytos aa candea, e mais trezentas bezerras & mil ouelhas meyrinhas & dozentas cordeyrinhas taes que em nenhuas serras 615 nam se achem tam gordinhas.

-- E Gouuea mandaraa dous mil sacos de castanha tam grossa, tam san, tamanha que se marauilharaa 620 onde tal cousa se apanha.

E Manteygas lhe daraa leyte para quatorze annos, & Couilham muytos panos finos que se fazem laa.

625 -- Mandaraam desses casaes que estam no c.u.me da serra pena pera cabecaes toda de aguias Reaes, naturaes mesmo da terra.

630 E os do val dos penados & montes dos tres caminhos que estam em fortes montados mandaro empresentados trezentos forros darminhos 635 pera forrar os borcados.

-- Eu ey lhe de presentar minas douro que eu sey com tanto que ella ou el Rey o mandem ca apanhar, 640 abasta que lho criey.

GONc. E afora ainda aos presentes auemos lhe de cantar muyto alegres & contentes polla Deos alumiar 645 por alegria das gentes.

Vem dous folies do Sardoal, hum se chama Jorge e outro Lopo, & diz a Serra:

-- Sois vos de Castella, manos, ou la debayxo do estremo?

JOR. Agora nos faria o demo a nos outros Castellanos.

650 Queria antes ser lagarto polos sanctos auangelhos.

SERRA. Donde sois?

JOR. Do Sardoal, & ou bebela ou vertela, vimos ca desafiar 655 a toda a serra da estrela a cantar & a baylar.

ROD. -- Soberba he isso perem pois haqui tantos pastores & tam finos bayladores 660 que nam ham medo a ninguem.

LOPO. Muytos ratinhos vam la de ca da serra a ganhar & la os vemos cantar & baylar bem coma ca 665 & he a.s.si desta feycam.